Empresas interligadas, gráficas, verba pública e R$ 328 mil: os contratos que colocam Pollon na mira.

O deputado federal Marcos Pollon enfrenta uma série de questionamentos envolvendo o uso de recursos públicos da Cota para Divulgação da Atividade Parlamentar (CDAP) e a estrutura empresarial ligada ao movimento Proarmas. Documentos analisados apontam para contratos que, somados, ultrapassam R$ 328 mil, além de possíveis conexões entre empresas beneficiadas por recursos públicos e pessoas do entorno político do parlamentar.
A documentação obtida revela três frentes distintas de questionamentos: pagamentos considerados desproporcionais para serviços gráficos, contratação de empresas com vínculos aparentemente cruzados e denúncias sobre a destinação de recursos arrecadados pelo movimento Proarmas.
Contrato de R$ 105 mil levanta suspeita de sobrepreço superior a 2.000%
Uma das contratações analisadas envolve a empresa Adriana Tenório Sehnem, sediada em Maceió (AL). Entre setembro e dezembro de 2023, o gabinete de Pollon destinou R$ 105 mil para a impressão de 6 mil unidades de material gráfico em papel couchê, ao custo declarado de R$ 17,50 por unidade.
A apuração compara esses valores com orçamentos de mercado e conclui que o mesmo material poderia custar aproximadamente R$ 4,8 mil. Se a estimativa estiver correta, a diferença ultrapassaria R$ 100 mil, representando uma sobrevalorização superior a 2.000%.
Outro aspecto que chama atenção é a localização da empresa contratada. Embora Pollon represente Mato Grosso do Sul e mantenha gabinete em Brasília, a fornecedora está sediada em Alagoas, a mais de 2 mil quilômetros de distância. Segundo a apuração, não foi identificada vantagem econômica que justificasse a escolha.
A análise ainda aponta que o e-mail cadastrado pela empresa estaria vinculado a uma agência de comunicação e que o telefone registrado utiliza DDD 67, o mesmo de Mato Grosso do Sul, circunstâncias que levantam questionamentos sobre possíveis conexões locais.
Nova sequência de contratos soma quase R$ 194 mil
Uma segunda frente da investigação envolve R$ 193.556,50 pagos a duas empresas individuais: uma registrada em nome de Giovana dos Santos Burnier e outra em nome de Ricardo de Souza Kramer. Segundo o levantamento, os recursos também tiveram origem na verba pública destinada à divulgação da atividade parlamentar.
Entre os gastos identificados estão 25 mil folders impressos em diferentes contratos. A documentação aponta que os materiais foram pagos por valores entre R$ 3,35 e R$ 3,50 por unidade. Comparações realizadas com gráficas online indicariam preços médios de aproximadamente R$ 0,785 por unidade para produtos semelhantes.
Com base nessa comparação, a apuração sustenta que os 25 mil folders custariam cerca de R$ 19,6 mil em valores de mercado, mas teriam consumido R$ 85,1 mil dos cofres públicos, uma diferença de R$ 65,4 mil.
Também aparece nos registros uma despesa de R$ 8.456,16 para aquisição de 79 itens descritos apenas como “materiais gráficos”, ao custo unitário de R$ 107,04. O documento questiona a compatibilidade desse valor com produtos gráficos de dimensões semelhantes.
Mesmo endereço, mesmo e-mail e possível rede empresarial
O ponto mais sensível da apuração está na relação entre as empresas beneficiadas.
Os documentos apontam que a empresa de Giovana Burnier e a empresa de Ricardo Kramer funcionariam no mesmo endereço. Além disso, as notas fiscais emitidas por uma delas utilizariam um e-mail corporativo vinculado a uma terceira empresa, identificada como Bertho Brasil.
Segundo a análise, as três pessoas jurídicas estariam registradas no mesmo local físico. A coincidência levou os autores da apuração a levantar a hipótese de uma estrutura empresarial integrada ou de uma possível interposição de empresas para ocultar quem seria o verdadeiro beneficiário dos recursos.
Outro elemento citado é que o endereço informado corresponderia a um galpão, considerado pela apuração incompatível com a estrutura normalmente exigida para serviços gráficos especializados.
Denúncias sobre o Proarmas ampliam desgaste
Paralelamente aos questionamentos sobre gastos parlamentares, Pollon também foi alvo de críticas relacionadas ao funcionamento do Proarmas, movimento nacional que ajudou a fundar e que se tornou uma das principais bandeiras de sua trajetória política.
Segundo relatos reunidos na apuração, usuários que aderiam aos planos pagos oferecidos pelo Proarmas acreditavam contribuir para uma causa associativa. No entanto, as notas fiscais seriam emitidas por uma empresa privada da qual o próprio deputado aparece como sócio-administrador.
A investigação também aponta que o domínio do site do Proarmas estaria registrado em nome de uma holding patrimonial que teria como sócios Pollon, sua esposa e os filhos do casal. O administrador da empresa, segundo os documentos, ocupava cargo de secretário parlamentar no gabinete do deputado.
Pressão por explicações
Isoladamente, cada uma das situações poderia ser tratada como uma coincidência administrativa ou uma escolha comercial. Em conjunto, porém, os documentos analisados desenham um cenário que levanta dúvidas sobre critérios de contratação, compatibilidade de preços, vínculos empresariais e eventual conflito de interesses.
Até que haja manifestação dos órgãos de controle ou decisão judicial, as informações permanecem no campo dos indícios e questionamentos levantados pela documentação analisada. Ainda assim, os valores envolvidos, a repetição de fornecedores, os endereços compartilhados e as conexões empresariais descritas nos documentos colocam o deputado sob crescente pressão para apresentar esclarecimentos públicos detalhados.
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