Perseguido pelo sistema corrupto, morre o ex- Prefeito de Campo Grande Alcides Bernal

Relatório do Gaeco apontou que empresários e agentes políticos se associaram para obter votos favoráveis ao afastamento de Alcides Bernal da Prefeitura. A investigação reuniu milhares de páginas de provas, movimentações financeiras, interceptações telefônicas e documentos que passaram a integrar um dos maiores inquéritos da história política de Mato Grosso do Sul.

A morte de Alcides Bernal, na madrugada desta segunda-feira (13), aos 60 anos, não encerra apenas a trajetória de um ex-prefeito de Campo Grande. Ela também faz a política sul-mato-grossense revisitar um dos capítulos mais marcantes de sua história recente: a Operação Coffee Break, investigação conduzida pelo Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) que concluiu haver uma articulação entre empresários e agentes políticos para garantir sua cassação do comando da Prefeitura.

Mais de uma década após o afastamento do então prefeito, o relatório produzido pelo Ministério Público continua sendo um dos documentos mais relevantes para compreender a crise política que tomou conta de Campo Grande entre 2013 e 2015. Ao reunir milhares de páginas de provas, interceptações telefônicas, análises financeiras, documentos e depoimentos, a investigação apresentou uma nova leitura sobre os bastidores da cassação de Bernal, apontando que o processo político teria sido precedido por uma articulação organizada para assegurar votos favoráveis ao seu afastamento.

A Coffee Break tornou-se um divisor de águas na política de Mato Grosso do Sul. Deflagrada em agosto de 2015, a operação levou ao afastamento do então prefeito Gilmar Olarte (PP) e do então presidente da Câmara Municipal, Mario Cesar Fonseca (PMDB), além de conduzir vereadores para prestar depoimento e aprofundar uma investigação que, meses depois, resultaria em um relatório de 245 páginas inserido em um procedimento com cerca de 4,8 mil páginas distribuídas em 24 volumes.

A morte de Bernal recoloca esse episódio no centro do debate público. Para seus aliados, as conclusões do Gaeco reforçaram a tese que o ex-prefeito sustentou até o fim da vida: a de que sua cassação não foi consequência apenas de divergências políticas e administrativas, mas de uma articulação construída nos bastidores para retirá-lo do cargo. Independentemente das diferentes interpretações sobre os fatos e dos desdobramentos judiciais posteriores, a Operação Coffee Break permanece como um dos episódios mais emblemáticos da história política de Campo Grande e um capítulo indissociável da trajetória de Alcides Bernal.

A operação nasceu da investigação dos bastidores da cassação

As apurações começaram em julho de 2015 e culminaram, em 25 de agosto daquele ano, na deflagração da Operação Coffee Break.

Naquela manhã, nove vereadores foram conduzidos coercitivamente para prestar esclarecimentos ao Gaeco. A operação também resultou no afastamento do então prefeito Gilmar Olarte (PP) e do então presidente da Câmara Municipal, Mario Cesar Fonseca (PMDB), por suspeitas relacionadas aos fatos investigados.

O nome da operação fazia referência à expressão “cafezinho”, utilizada, segundo o Ministério Público, por investigados para se referirem ao pagamento de propina durante as articulações políticas.

O impacto foi imediato. Campo Grande voltou a mergulhar em uma crise institucional justamente no período em que Bernal lutava para reassumir o cargo.

Um relatório de milhares de páginas

Ao concluir as investigações, o Gaeco apresentou um relatório de 245 páginas, inserido em um procedimento investigatório que somava aproximadamente 4,8 mil páginas distribuídas em 24 volumes.

Somente um dos aparelhos celulares apreendidos durante a operação gerou cerca de 40 mil páginas de conversas e documentos analisados pelos investigadores.

Segundo o coordenador do Gaeco à época, promotor Marcos Alex Vera de Oliveira, as provas reunidas permitiram identificar movimentações financeiras consideradas incompatíveis com a renda declarada de alguns investigados, além de documentos, registros bancários e elementos que indicariam a prática de corrupção ativa, corrupção passiva e associação criminosa.

“O que está claro é que houve uma associação de pessoas que, por interesses políticos e empresariais, articularam um plano para obter votos favoráveis à cassação do prefeito Alcides Bernal”, afirmou o promotor ao apresentar as conclusões da investigação.

Compra de apoio e movimentações financeiras

De acordo com o relatório, três pessoas teriam atuado diretamente para angariar votos favoráveis ao afastamento de Bernal, realizando reuniões e oferecendo vantagens indevidas.

Os investigadores também apontaram movimentações financeiras consideradas muito superiores aos rendimentos declarados por alguns dos envolvidos.

Ao divulgar o resultado da investigação, o Gaeco apresentou como exemplo o caso de um vereador que declarou rendimento anual de aproximadamente R$ 393 mil em 2013, mas movimentou cerca de R$ 4,3 milhões em contas bancárias no mesmo período.

Segundo o Ministério Público, cinco personagens exerceram papel central na articulação política investigada, reunindo empresários e agentes públicos em torno do objetivo de retirar Bernal do comando da Prefeitura.

O diário que chamou a atenção dos investigadores

Entre os elementos considerados mais relevantes pelos promotores estava um diário encontrado em um tablet pertencente à esposa de um dos investigados.

Conforme o Gaeco, as anotações registravam reuniões, encontros e articulações relacionadas à cassação de Bernal muito antes da conclusão da Comissão Processante instalada pela Câmara Municipal.

Para os investigadores, o material reforçava a tese de que o afastamento do prefeito vinha sendo planejado paralelamente ao processo político conduzido pelo Legislativo.

Além disso, a investigação identificou indícios de remessas de recursos ao exterior e documentos relacionados a outras apurações de corrupção, fatos que também passaram a integrar o conjunto probatório analisado pelo Ministério Público.

A volta de Bernal e uma nova leitura sobre a crise

No mesmo período em que a Coffee Break ganhava repercussão estadual, o Tribunal de Justiça determinava o retorno de Alcides Bernal ao cargo de prefeito.

Após um ano e cinco meses afastado, ele voltou ao Paço Municipal afirmando encontrar uma Prefeitura “quebrada”.

Embora a decisão judicial que o reconduziu ao cargo não estivesse fundamentada nas conclusões da Operação Coffee Break, o avanço das investigações trouxe novos elementos para compreender os bastidores da crise política iniciada em 2013.

Ao apontar a existência de uma articulação para garantir sua cassação, o relatório do Gaeco passou a ocupar posição central no debate público sobre aquele período, alimentando discussões políticas e jurídicas que se estenderiam pelos anos seguintes.

Uma investigação que permanece como marco político

A Operação Coffee Break consolidou-se como uma das investigações mais emblemáticas da história política de Mato Grosso do Sul. Mais do que seus desdobramentos judiciais, ela alterou o debate sobre a queda de Alcides Bernal e reforçou a dimensão institucional da crise vivida por Campo Grande entre 2013 e 2015.

Para aliados do ex-prefeito, as conclusões do Gaeco corroboravam a narrativa de que seu afastamento foi resultado de uma articulação política organizada. Já os desdobramentos judiciais seguiram caminhos próprios ao longo dos anos.

Independentemente das diferentes interpretações sobre o caso, a Coffee Break tornou-se um divisor de águas na política sul-mato-grossense. Ao revelar os bastidores de um dos episódios mais marcantes da história da Capital, a operação passou a integrar de forma definitiva a trajetória de Alcides Bernal e permanece como referência obrigatória para compreender aquele período que transformou a política de Campo Grande.

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