O cerco seletivo do 8 de Janeiro e os alvos em Mato Grosso do Sul
Investigações sobre os atos de Brasília avançaram sobre empresários, lideranças civis e militantes conservadores sul-mato-grossenses, enquanto suspeitas de articulação à distância seguem em disputa narrativa
Passados os episódios de 8 de janeiro de 2023, em Brasília, quando prédios dos Três Poderes foram invadidos e vandalizados, a atuação conjunta da Polícia Federal, do Ministério Público Federal e do Judiciário passou a concentrar esforços na identificação de apoiadores, financiadores e incentivadores das manifestações que questionavam o resultado eleitoral que conduziu Luiz Inácio Lula da Silva de volta à Presidência da República.
Embora milhares de manifestantes tenham sido presos, investigados ou submetidos a medidas cautelares, cresce o debate entre juristas e setores conservadores sobre a seletividade das investigações e o uso político do episódio como instrumento de intimidação contra a direita organizada.
Mato Grosso do Sul, estado historicamente identificado com pautas conservadoras, entrou no radar das autoridades federais como um dos polos de apoio logístico e humano às mobilizações em Brasília. Entre os nomes citados em investigações e reportagens estão integrantes da Associação Comercial e Industrial de Campo Grande (ACICG) e o advogado Roberto Oshiro, então 1º secretário da entidade.
Segundo registros de redes sociais e mensagens posteriormente analisadas, Oshiro teria atuado na mobilização de apoiadores, incentivando o deslocamento de manifestantes à capital federal. Em uma das conversas divulgadas, o advogado comemora a invasão dos prédios públicos e menciona a organização de transporte, afirmando: “Estou organizando um ônibus também. Com o pastor Anderson!”.
As postagens, feitas de forma aberta nas redes sociais no próprio dia 8 de janeiro, demonstram, segundo investigadores, que não havia preocupação com a exposição pública das ações, o que posteriormente serviu como base para pedidos de apuração criminal.
Outro nome citado em diálogos é o da rede campo-grandense Drogaria Freire, de razão social Azpt Medicamentos e Perfumaria Ltda, vinculada aos empresários Antônio Freire, Zélia Nolasco, Patrícia e Tales Freire. A empresa aparece em conversas associadas ao apoio financeiro às mobilizações, o que também passou a ser objeto de investigação.
De acordo com informações apuradas, os valores arrecadados via PIX para custear deslocamentos e despesas dos manifestantes teriam sido direcionados a Rodrigo de Souza Lins, figura ligada ao PRTB, partido do ex-candidato ao governo de Mato Grosso do Sul, Capitão Contar. Lins e Aline Paiva Lopes, assessora parlamentar do vereador Rafael Tavares, foram alvos da 16ª fase da Operação Lesa Pátria, que buscou identificar os supostos articuladores e financiadores do ataque às sedes dos Três Poderes.
Além deles, outros nomes aparecem em grupos de mensagens analisados pela Polícia Federal, como Nilsom Collor, Valéria, Jose, Juliana Arantas, Augusto, além de contatos identificados como CJE e Dona Reni.
Para setores da direita, o caso evidencia um movimento de criminalização ampla do ativismo conservador, com empresários, líderes civis e militantes sendo expostos e investigados por manifestações políticas, enquanto permanece o questionamento sobre a real existência de uma estrutura organizada capaz de promover um golpe de Estado.
O 8 de janeiro segue, assim, como um divisor de águas no cenário político nacional: de um lado, o discurso oficial de defesa da democracia; de outro, a percepção crescente de que o episódio se transformou em ferramenta para consolidar poder, silenciar opositores e intimidar a direita fora do eixo institucional de Brasília.
fonte ; ms noticias









