“O bastardo”: Deputado estadual conhecido como “Cabeça de Gato” condenado por lavar dinheiro em milícia mais sangrenta de MS com elo com o PCC e CV pode ficar inelegível

Enquanto manobrava a caminhonete S-10 em frente à casa dos pais, em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, na noite de 9 de abril deste ano, o jovem Matheus Coutinho Xavier, 20 anos, não notou a rápida aproximação de um automóvel branco na rua. O veículo freou bruscamente em frente à casa, e dele saiu um homem encapuzado, os dedos no gatilho de um fuzil AK-47. Foram mais de dez disparos, sete dos quais perfuraram o tórax do rapaz. Morte instantânea, por encomenda. Morte errada. O alvo dos assassinos era o pai, o capitão da Polícia Militar Roberto Teixeira Xavier, que estava dentro da garagem e tentou, em vão, socorrer o filho. Matheus chegou morto à Santa Casa da cidade.

O capitão da PM já fora detido em 2009, acusado de comandar um esquema de máquinas caça-níqueis em Campo Grande. Naquela noite, o plano era matá-lo, por causa de uma disputa de terras no Sudoeste do estado. O crime foi planejado com mais de um mês de antecedência. Os assassinos chegaram a contratar um hacker para saber em tempo real a localização do policial. Na hora de apertar o gatilho, porém, confundiram pai e filho. 

A perícia constatou que a arma utilizada no crime foi a mesma empregada em outros dois assassinatos ocorridos em 2018 na cidade: o do subtenente da Polícia Militar Ilso Martins Figueiredo e o de Orlando da Silva Fernandes, ligado a traficantes da fronteira com o Paraguai. As duas vítimas eram suspeitas da morte de um dos filhos de Fahd Jamil, o “rei da fronteira”, notório contrabandista de Ponta Porã. Nos três crimes, a investigação do Ministério Público encontrou as digitais do clã comandado pelo bicheiro Jamil  Name, acusado de envolvimento em vários crimes, num circuito de assassinatos, dinheiro e poder no Mato Grosso do Sul. Name e seu grupo frequentam tanto o submundo do crime como o high society local, com contatos que vão de pistoleiros a autoridades. 

Desde os anos 1990 Jamil Name, o patriarca, controla a jogatina no estado – tem três registros policiais por exploração de jogos de azar – embora se apresente em Campo Grande como um próspero pecuarista, dono de cinco empresas, entre elas duas mineradoras e uma emissora de rádio. Segundo a investigação do Ministério Público, o bicheiro também realiza negócios no Uruguai, conhecido paraíso fiscal. A família Name é muito próxima de Fahd Jamil – o rei da fronteira é padrinho de batismo de Jamil Name Filho, o Jamilzinho, filho do patriarca. 

No fim de setembro último, Name, o filho e mais 21 pessoas, entre eles policiais civis e guardas municipais, foram presos na Operação Omertà, referência à lei do silêncio da máfia italiana. Todos são investigados pelo Ministério Público pelos crimes de organização criminosa, corrupção, tortura e homicídio praticado por grupo de extermínio. Jamil Name é apontado pelo Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado) como o suposto mandante desses três assassinatos. No sábado, 12, Name e o filho foram levados para o presídio federal de Campo Grande. 

Os Name, pai e filho, já estavam no radar da polícia desde o assassinato, em 2012, de um bicheiro concorrente. No ano seguinte, foi a vez de um delegado aposentado ser morto – o autor dos disparos contra o delegado, um pistoleiro ligado a Name, era o mesmo que matara por engano o jovem filho do sargento, em abril deste ano. Também foram assassinados em Campo Grande um jovem que havia brigado com Jamilzinho em uma boate e um empresário do ramo de mineração que devia dinheiro aos Name. E, por último, a vingança pela morte do filho de Fahd Jamil – padrinho de batismo de Jamilzinho.

A Polícia Civil sabia que investigadores da corporação trocavam informações com o grupo de Jamil Name. Assim, para evitar que a apuração vazasse, pediu auxílio ao Gaeco, que instaurou formalmente a investigação em 3 de maio deste ano e passou a grampear os telefones dos Name com autorização judicial. Quinze dias depois, Jamil Name ordenou ao gerente da quadrilha, o guarda municipal Marcelo Rios, que retirasse as armas do paiol da milícia, em uma casa dos Name em Campo Grande. O “capo” teria se irritado com fotos de uma festa no imóvel publicadas por Rios em uma rede social. Depois de levar bronca de Jamil Name, chamado de “Velho” pelo grupo, o guarda municipal temeu pelo pior. “O velho vai me empurrar”, disse a um amigo – “empurrar”, no jargão policial, significa matar. O advogado de Rios não foi localizado pela piauí.

No dia 19 de maio, os policiais detiveram Rios próximo à casa de Jamil Name e foram até o imóvel que abrigava o paiol de armas. Lá, foram apreendidos 2 fuzis AK-47, 4 fuzis 556, 2 espingardas calibre 12, 17 pistolas e 1 revólver, além de 2 bonés com câmera oculta – Jamil Name aparece em parte das imagens gravadas pelo dispositivo –, 1 “arreador de gado”, bastão que emite descargas elétricas que, segundo o Gaeco, era utilizado em sessões de tortura e 1 bloqueador de sinal eletromagnético que, de acordo com os promotores, impedia que criminosos com tornozeleira eletrônica fossem rastreados. Marcelo Rios levava em uma bolsa 39 pendrives – num deles havia cópia de um diálogo no aplicativo WhatsApp entre Jamilzinho e a mulher, datado de abril de 2018. “Quem tem que te[r] medo é quem é caçado. Não sou eu”, escreveu o rapaz, em letras maiúsculas. “A matilha é minha. Não morro fácil não. Sai a maior matança da história do MS. De picolezero a governador.”

Após o flagrante das armas, Jamilzinho, orientado pelo seu advogado, foi para a fronteira, onde permaneceu por quarenta dias na casa do padrinho Fahd Jamil, uma réplica da residência do cantor Elvis Presley nos Estados Unidos. Antes, com o auxílio de guardas municipais, retirou do apartamento dele em Campo Grande várias caixas e mochilas. O pai, Jamil Name, ficou contrariado com a fuga do filho, segundo funcionários da família: “O seu Jamil fala ‘traidor, pode viajar’. Diz que dificilmente ele escapa da cana [prisão] ou de morrer”, disse um deles.

Mas, segundo a investigação, ainda havia um fio solto na tentativa de ocultar provas por parte dos Name: a mulher de Marcelo Rios ameaçava delatar a quadrilha ao Gaeco. Dois dias após a prisão do marido, dois funcionários de Jamil Name procuraram-na em casa e ofereceram 1,2 mil reais, com a promessa de manter repasses semanais, desde que ela não falasse o que sabia para os promotores. Um deles, segundo ela, disse que “Jamilzinho tinha prometido que Marcelo não seria exonerado da Guarda Municipal, desde que ficasse com a boca fechada. E, se ela também abrisse a boca, seria morta primeiro e depois matariam Marcelo na cadeia.” Apesar das ameaças, a mulher contou o que sabia aos promotores do Gaeco, o que motivou a prisão dos três integrantes da quadrilha que a ameaçavam pelo crime de obstrução de Justiça. Ela chegou a ser inscrita no programa de proteção a testemunhas do Ministério Público, mas desistiu. Os promotores suspeitam que ela foi novamente cooptada pelo grupo.

Nesta segunda-feira (14), Jamil Name, Jamilzinho e mais dezenove pessoas foram denunciadas por um conjunto de crimes, como participação em organização criminosa armada, corrupção ativa, extorsão, constituição de milícia privada e tráfico de armas de fogo.

Não há, nos documentos do processo e nas gravações, provas do envolvimento de autoridades locais com o esquema de Name. Não faltam, porém, indícios da relação próxima entre o bicheiro e seu grupo com a política sul-mato-grossense. Sua mulher, Tereza Name, buscando uma cirurgia para uma criança no SUS, pediu ajuda a ninguém menos que o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, como captaram as escutas telefônicas autorizadas pela Justiça. Nos diálogos, Tereza, que apesar de investigada não foi detida nem deve ser denunciada à Justiça, segundo os promotores, diz que Mandetta “pode ser o futuro presidente” do Brasil. Mas o ministro ressalva que é preciso ter “tato pra falar porque ele”, possivelmente Jair Bolsonaro, “é muito temperamental”. “Imagina se juntar ele e o Jamil”, sugere Tereza. “Vão declarar a Terceira Guerra Mundial”, completa Mandetta.

As famílias Name e Mandetta já estiveram juntas no noticiário policial do estado. Em 2007, Jamil Name, Jamilzinho e Hércules Mandetta Neto, irmão do atual ministro da Saúde, foram alvos da Operação Xeque-Mate, da Polícia Federal, que investigou esquema de exploração ilegal de jogos de azar e corrupção de agentes públicos no Mato Grosso do Sul. Em nota, a assessoria do ministro disse que não poderia comentar o diálogo com Tereza pois “não é possível a confirmação da autenticidade do texto encaminhado pela revista”. “De qualquer forma, é importante dizer que todos os diálogos deste ministro são republicanos, de interesse público ou de conhecimento geral.”

A família Name também mantinha relacionamento estreito com o senador Nelson Trad Filho, do PSD, com o ex-governador José Orcírio Miranda dos Santos, o Zeca do PT, e com desembargadores do Tribunal de Justiça do Mato Grosso do Sul. Na gaveta do criado-mudo de um quarto da casa de Jamil Name em Campo Grande, os policiais que cumpriam os mandados judiciais de busca e apreensão encontraram um cheque de 100 mil reais do desembargador aposentado do Tribunal de Justiça de MS Joenildo de Sousa Chaves e outro do mesmo valor de Zeca do PT. O petista sempre foi muito próximo dos Name – na primeira gestão dele à frente do governo do Mato Grosso do Sul, entre 1999 e 2002, uma empresa de Name venceu licitação para explorar máquinas caça-níqueis no estado. 

Chaves disse que o cheque é parte do pagamento de empréstimo feito a ele por Name. “Uma operação normal”, definiu. Contatado por aplicativo de mensagens, Zeca do PT não respondeu.

Juntos aos cheques havia ainda uma folha de papel com anotações, digitadas em computador, a respeito de uma ação de improbidade administrativa contra Nelson Trad Filho, ex-prefeito de Campo Grande e atual senador pelo PSD, e outros quatro réus. “Neste processo o valor combinado em relação à LIMINAR foi de (…) um milhão de reais, sendo R$ 200.000,00 (duzentos mil reais) para cada um dos réus na ação; Para o mérito desta fase […] combinou-se R$ 200 mil (duzentos mil reais), para cada um deles, perfazendo então o valor de R$ 1.000.000,00 (hum milhão de reais). Portanto: (…) R$ 2.000.000,00.” Em seguida, cita-se outra ação de improbidade com mais cinco réus, em que “combinou-se o valor” de 250 mil reais “para obtenção da medida […]. O relator foi o mesmo desembargador (Marcelo Câmara Raslan)”. 

Procurado, Raslan negou ter concedido liminar na ação cível contra Nelson Trad Filho e disse que pediu uma “ampla e profunda” investigação sobre o caso ao TJ, ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e ao Superior Tribunal de Justiça. “Desconheço o motivo de haver escritos em que consta meu nome. Desejo que tudo seja apurado de forma abrangente e profunda. Por conta disso, abri mão de qualquer sigilo, inclusive procedimental”, afirmou.

Trad, que como os Name também é descendente de libaneses, é próximo da família de Jamil. Na conversa com o ministro Mandetta, Tereza Name afirma que Nelson Trad Filho esteve na casa dela dias antes. Em outro diálogo com um vereador da capital, ela diz que Nelson será candidato a governador em 2022. “Ele falou ontem pra mim.” A assessoria do senador confirmou que Trad Filho mantém relação de amizade com Tereza desde os tempos em que eram vereadores de Campo Grande. Sobre as anotações encontradas na casa de Jamil Name, a assessoria afirmou que não fazem sentido, já que todas as decisões do desembargador foram contrárias aos recursos do senador. “Somos favoráveis a abrir qualquer tipo de sigilo, seja processual, fiscal ou telefônico que envolve o senador, para deixar absolutamente claro que não há nenhuma vinculação dele com o fato relacionado.”

O Gaeco encaminhou cópia do material apreendido para o Tribunal de Justiça, “para conhecimento e eventuais providências”. A assessoria do TJ não respondeu aos questionamentos enviados pela reportagem.

O advogado dos Name, Renê Siufi, disse que as acusações contra Jamil Name e o filho “não têm o menor lastro probatório”. “Essas acusações serão espancadas na fase judicial. Quando ocorrer o contraditório e pudermos exercer a ampla defesa, entendo que a verdade virá à tona.”

Após a morte de Jamil Name e a prisão de Jamilzinho quem assumiu os negócios da família Name foi o deputado condenado Jamilson Name que tenta a reeleição em 2026.

Deputado estadual é condenado por lavar dinheiro de milícia. A Justiça condenou Jamilson Name a oito anos de prisão em regime semiaberto.

O deputado estadual Jamilson Lopes Name foi condenado a oito anos de prisão em regime semiaberto por integrar, segundo a acusação, organização criminosa e praticar lavagem de dinheiro. Ele é apontado como líder de um esquema de exploração do jogo do bicho. A sentença foi assinada pelo juiz Roberto Ferreira Filho. Além dele, a chamada “gerentona” do jogo do bicho, Darlene Luiza Borges (conhecida como “Dadá”) e Cícero Balbino foram condenados.

A decisão judicial incluiu o bloqueio de cerca de R$ 18 milhões em bens apreendidos durante a Operação Omertà. Esses valores foram parcialmente confiscados para reparação e para limitar a capacidade financeira do grupo, enquanto a outra metade permanece sob análise para restituição. Jamilson pode recorrer em liberdade da sentença no TJMS (Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul).

Caso Motel

O que sobrou do caso que deixou duas mortes sem solução e boate em ruínas?
Murilo Boarin Alcalde e Eliane Ortiz foram asfixiados em 2005; quase 20 anos depois, ninguém foi condenado.

Todo mundo sabe? – “Acha que já não se sabe?”, questionou o empresário José Marcos Alcalde, 68 anos, pai de Murilo, em entrevista ao Campo Grande News. A advogada Maria Henriqueta de Almeida, que representou Adriano de Araújo afirma: “Ninguém vai achar o culpado, jamais, a investigação foi feita para não achar nada”.

A frase com expectativa sobre o caso, e que abre a reportagem, faz parte da decisão do então juiz da 2ª Vara do Tribunal do Juri, Júlio Roberto Siqueira Cardoso, de não levar a julgamento os três réus denunciados pelo MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul).

Até chegar a esse momento do processo, em setembro de 2008, o caso passou por investigação truncada e complexa, com pedidos feitos pelo MP que suscitaram em severas críticas do magistrado.

As mortes aconteceram na madrugada de 21 de junho de 2005. Eliane era de Marechal Rondon (PR), trabalhava como garota de programa na Mariza’s American Bar. Murilo era acadêmico de Administração e, na noite de 20 de junho, foi com um amigo até a casa noturna, onde acabou se encontrando com a jovem.

De lá, Murilo saiu acompanhado de Eliane, deixou o amigo em casa e seguiu para outro local com a garota. Os dois jovens somente foram encontrados no dia seguinte. Estavam mortos, dentro do quarto 42 de um motel.

A notícia da morte do casal chegou às redações quase no fim da tarde. Antes, já havia circulado o suficiente para levar dezenas de policiais civis e militares ao motel, atraídos pela informação inicial de que os crimes tinham envolvido um colega. O quarto não foi preservado, o que se mostrou um dos vários problemas que a investigação se deparou no decorrer dos meses.

A investigação foi comandada pelo delegado Eduardo Kyrillos Tebet. Durou cerca de quatro meses, resultando em um calhamaço de 15 volumes de material.

Carro de Murilo foi usado para levar corpos. (Foto/Arquivo)
Entre as dezenas de depoimentos anexados, constou o de Lusérgio Barreira de Abreu, que chegou a integrar o Provita (Programa Estadual de Proteção a Vítimas e Testemunhas). O relato dele levou a quatro nomes: do sargento da PM (Polícia Militar) Getúlio Morelli dos Santos, do cabo Adriano de Araújo Melo, além de outrs dois homens: Írio Vilmar Rodrigues e Ronaldo Vilas Boas Ferreira. A testemunha citou outro PM envolvido, nome que nunca foi esclarecido.

A investigação relatou que o casal foi emboscado depois de ter saído da boate, sendo levado para local ermo. Eliane foi asfixiada com uma meia masculina, sendo a primeira a morrer. Murilo foi imobilizado e também sufocado. Os dois foram colocados no carro do rapaz e levados ao motel, onde a cena do crime foi montada.

O inquérito foi finalizado em outubro de 2005 e parou nas mãos dos promotores do Gaeco (Grupo de Atuação de Combate ao Crime Organizado), pois havia linha de investigação que apontava para esquema de tráfico de drogas e participação de grupo criminoso organizado.

Antes de oferecer a denúncia, o Gaeco pediu mais prazos para novas diligências. “(…) muito embora se reconheça o esforço e a dedicação do trabalho da Polícia Civil, entende o Ministério Público que as provas colhidas são insuficientes para o oferecimento da denúncia em desfavor dos indiciados Adriano e Getúlio, eis que não foram esclarecidas todas as circunstâncias que permeiam a autoria ou a participação deles nos crimes”.

O MPMS apontou, ainda, o que considerou várias falhas na investigação: a meia masculina usada para asfixiar Eliane desapareceu, pertences das vítimas foram parar no lixo, não houve coleta suficiente de urina da jovem, além de não ter sido colhido material semelhante a esperma encontrado nela. Também foi citada a presença de policiais que não faziam parte da investigação durante a necropsia…. veja mais em https://www.campograndenews.com.br/cidades/capital/o-que-sobrou-do-caso-que-deixou-duas-mortes-sem-solucao-e-boate-em-ruinas

As novas diligências se arrastaram até que, em fevereiro de 2007, o juiz Júlio Roberto Siqueira teceu comentários mais incisivos nos despachos processuais. Ao revogar as prisões dos indiciados, comentou: “(…) o feito virou um emaranhado sem fim dando azo a um sem número de versões e interpretações que jamais poderiam levar à elucidação dos verdadeiros autores do crime em apuração”.

Mariza Fátima dos Santos, dona da boate, presta depoimento à polícia. (Foto/Arquivo)
Siqueira cita também o fato de Lusérgio Barreira Abreu ter mentido em cinco dos oito depoimentos prestados, o que seria um “autêntico tiro n’água” do MPMS. “De que adianta lastrear a denúncia num depoimento inseguro como foi aquele apresentado pela testemunha?”.

Em dezembro de 2007, o magistrado se manifestou novamente contra pedido de novas diligências e determinou que o Gaeco chegasse às alegações finais. “Chega de esforços inúteis ou de requerimentos ilegítimos (…)”. Listou que foram 750 dias a mais de andamento processual, com 57 interceptações telefônicas, 37 quebras de sigilo telefônico e 30 pedidos de prorrogações de interceptações.

Por fim, em 2008, o MPMS ofereceu denúncia contra os policiais militares e Írio Vilmar Rodrigues por homicídio qualificado por motivação torpe, emprego de meio cruel, emboscada e dissimulação de cadáver. Em relação a Ronaldo Vilas Boas Ferreira, que teria dirigido o carro de Murilo até o motel, os promotores optaram pela impronúncia.

O juiz determinou a impronúncia de todos. “Sinceramente, sempre discordei da posição e da linha de raciocínio encetadas pelo Parquet Estadual [MPMS]”. Siqueira avaliou que a linha de investigação por crime passional seria a mais lógica para se conseguir esclarecimento dos crimes. Citou depoimento de uma das camareiras, que teria visto Adriano de Araújo no motel, mas que, naquele momento, ocupava o celular à distância de 10 km.

Reconstituição realizada no quarto do  motel, em setembro de 2005. (Foto/Arquivo)
A gota de sangue de Getúlio Morelli, encontrada na entrada do quarto, também foi descartada como prova pelo magistrado. No depoimento, o sargento disse que soube da ocorrência, foi até o motel e se feriu no Walk-talk da viatura, o que foi corroborado por testemunhas. Siqueira também lembrou que a cena do crime não foi preservada, sendo passagem de policiais e funcionários do motel.

“Confesso que retardei ao máximo o sentenciamento deste feito por achar e estar convicto de que este crime será solucionado em breve quando os verdadeiros culpados serão levados às barras do Tribunal do Júri”, discorreu o juiz. Além de não levar a julgamento os denunciados, pediu que processo fosse encaminhado ao MPMS para instaurar processo de falso testemunho e favorecimento pessoal cometido por Lusérgio Abreu.

Espero, sincera e pessoalmente, que as autoridades encarregadas da verdadeira função da investigação policial não se acomodem com esta decisão e a tenham como marco primeiro e inicial de uma nova linha de conduta que, sem exageros, “longe dos holofotes”, finalizou o juiz Júlio Siqueira.

Este despacho data de 1º de setembro de 2008, ou seja, há quase 15 anos sem que o “em breve” tenha chegado para as vítimas.

Novos tempos – José Marcos Alcalde não concorda com a avaliação do juiz. “Poderia ter feito por outros caminhos, não arquivar”. Para ele, os homens apontados na denúncia são os culpados, mas não os únicos. “São mandados, estão por trás do crime, tem mais gente envolvida”.

Alcalde diz que o delegado do caso, Eduardo Kyrillos, “abraçou a causa”, mas foi até onde pode, sem apoio. “Ele trabalhou sozinho, dava murro em ponta de faca, foi até onde conseguiu”. Diz que hoje o Estado passa por outro momento e o caso seria elucidado com rapidez. “Na época faltou boa vontade, não tinha onde bater, as forças não eram iguais”.

A advogada Maria Henriqueta de Almeida avaliou. “Ninguém vai achar como foi, não interessa saber, é o que acho; acho não, tenho certeza”.

Boate que funcionava no Bairro Universitário, na Capital. (Foto/Arquivo)
O MPMS recorreu da impronúncia dos acusados, chegando ao STJ (Superior Tribunal de Justiça), que, em 2010, manteve a decisão de primeira instância. Em novembro de 2019, o Campo Grande News apurou que o duplo homicídio estava no radar da força-tarefa sediada na Garras (Delegacia de Repressão a Roubo a Banco, Assaltos e Sequestros), com apoio do Gaeco.

O grupo foi criado em 2018 para averiguar três execuções ocorridas em período de seis meses, em Campo Grande. A equipe apresentou resultados efetivos na Operação Omertà, culminando na prisão dos empresários Jamil Name e Jamil Name Filho, acusados de chefiar milícia dedicada a executar desafetos. Porém, até agora, nada de concreto e oficial levou a possível ligação e reabertura do homicídio de Murilo e Eliane.

Justiça? – Na única entrevista dada pela mãe de Murilo ao Campo Grande News, em 2014, Elizabeth Regina Boarin falou sobre a ausência do filho, ao lançar o livro “Meu filho partiu, eu fiquei…e agora?”, escrito com outras três mulheres, que também perderam seus filhos. “A justiça não vai ser através de mim, das pessoas, vai ser através de Deus”, declarou, à época.

Uma curiosidade: desde a morte de Murilo e Eliane, nenhuma porta do motel tem o número 42. Deixou de existir na sequência numérica dos quartos do local, sistema que perdura até hoje.

Segundo fontes e investigação do Grupo G7, a reportagem do caso motel virá a tona em breve por jornalismo investigativo de TV Nacional, porque este caso liga ao grupo que comandou o estado por décadas e ainda comanda no caso da milícia armada alvo da Operação Omertá.

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