“Filhos de Belial”: mensagens da operação Tromper entre os acusados mostram agradecendo a Deus por desvio de dinheiro público

As investigações da Operação Tromper, que desmantelou um esquema de corrupção em licitações na prefeitura de Sidrolândia, trouxeram à tona não apenas as movimentações ilegais de recursos públicos, mas também o tom de cinismo de alguns dos envolvidos. Trechos de conversas por WhatsApp, obtidas pela Polícia Civil, mostram como integrantes do grupo liderado por Claudinho Serra usavam Deus como justificativa ou bênção nas articulações fraudulentas.

Numa das mensagens de julho de 2021, Claudinho Serra, apontado como chefe do esquema, conversa com um aliado chamado de “meu amigo” e “parceiro”. Claudinho reforça que o interlocutor tem “toda a nossa confiança” e que “já é do time”, selando a entrada de um novo participante no núcleo de corrupção. O aliado é o ex-chefe de licitações do governo Reinaldo Azambuja (PSDB), Marcus Vinícius Rossettini de Andrade Costa.

Após a conversa com o ex-vereador de Campo Grande e ex-secretário de Fazenda de Sidrolândia, Claudinho Serra, Marcus Rossettini troca mensagens de “exaltação espiritual” com outro aliado.  “Deus está colocando pessoas boas em nossas vidas”, afirmou, como se as articulações criminosas fossem parte de um plano divino.

As trocas de mensagens chamaram a atenção dos investigadores pelo tom de naturalidade com que os envolvidos tratavam o esquema. Outro trecho da conversa deixa claro o cuidado com o sigilo.

“Vamos manter isso no máximo sigilo para que as pessoas que não gostam da gente, não explorem”, orienta Claudinho.

A Polícia Civil aponta que o grupo comandado por Serra manipulava processos de licitação, escolhendo previamente as empresas vencedoras e exigindo o pagamento de propina como condição para a assinatura dos contratos.

Ex-chefe de licitação de Reinaldo Azambuja atuou em esquema de corrupção em Sidrolândia

Alvo de diversas operações por desvios de recursos públicos, Marcus Vinícius Rossettini de Andrade Costa — ex-chefe de licitações do governo Reinaldo Azambuja (PSDB) — foi nomeado para cargo semelhante em Sidrolândia por Claudinho Serra (PSDB), apontado como líder de um esquema criminoso no município.

No início de junho, Marcus voltou a ser investigado. Endereços ligados a ele foram alvos de busca e apreensão durante a 4ª fase da Operação Tromper, que apura desvios milionários na gestão municipal.

Marcos foi nomeado em Sildrolândia quando Claudinho ainda estava estruturando sua equipe para a Secretaria de Fazenda, durante a gestão de sua sogra, Vanda Camilo, então prefeita de Sidrolândia.

Histórico de denúncias e fraudes em licitações

A atuação de Marcus em licitações remonta ao período em que foi secretário especial e superintendente de Compras no governo Azambuja. Documentos apontam que ele acolhia pareceres e acatava recursos administrativos no mesmo dia, favorecendo empresas investigadas por fraudes, como Max Limp e Mega Comércio — alvos da Operação Clean, em 2021.

Ele também foi citado em investigações por irregularidades no Hospital Regional de Mato Grosso do Sul (HRMS) e em licitações fraudulentas na cidade de Jardim, entre 2009 e 2010.

Em 2021, apesar do histórico, foi nomeado na Prefeitura de Sidrolândia. De lá para cá, passou a ser investigado em diferentes fases da Operação Tromper, inclusive com o uso de tornozeleira eletrônica. Na 4ª fase, foi novamente alvo de mandados, mas não chegou a ser preso por estar cumprindo medidas cautelares.

A defesa de Marcus afirma que ele responde às acusações em liberdade e que sua inclusão nos processos se deve apenas ao cargo que ocupava à época.

Laços políticos e esquema de poder

Claudinho Serra, considerado pupilo político dentro do PSDB, chegou ao cargo de vereador após sucessivas substituições na Câmara. Sua atuação foi sustentada por lideranças tucanas e citada em anotações apreendidas em empresas investigadas por fraudes em obras públicas.

Esses registros também mencionam o ex-presidente do PSDB estadual, Sérgio de Paula, com anotações sobre contratos e valores relacionados a obras em Aquidauana e Sidrolândia. Apesar da citação, Sérgio de Paula não é formalmente investigado.

O Ministério Público aponta que o grupo liderado por Claudinho continuou operando mesmo após as primeiras fases da Tromper, o que motivou novas prisões na 4ª etapa. Marcus, embora não detido, segue como investigado.

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